terça-feira, 18 de maio de 2010

A mulher do Sabonete – Parte I

Ele era conhecido por Wellington Sabonete. Wellinton Leandro da Silva por parte da família, e Sabonete por parte dos companheiros de equipe, o Botafogo de Sapucaia. Sabonete por ser escorregadio, liso, criativo, difícil de segurar.

Era o típico ponta-direita, drible fácil,  risada solta, jogava para a linha de fundo, não se importava com o gol, o que queria mesmo era o drible. Janela, lençol, carretilha, qualquer um.

Os zagueiros já o conheciam, ele ia levar a bola para o cantinho e tentar algum drible desconcertante.

“- Mas hoje não!”, pensavam eles “vou rachar ese cara!”.

E lá ia ele. Levava a bola até a bandeirinha, parava e olhava no fundo dos olhos do zagueiro, “vem…”, o zagueiro ia. Um touro, bufando, mirando o joelho esquerdo do Sabonete, ZÁZZZZZ… Uma paulada. “UUIIIII”, era a torcida depois da janela e do zagueiro caído no chão. E, como de costume, depois de entortar o defensor voltava o jogo. Nunca ía na direção do gol. Não era seu objetivo. A humilhação, a torcida gritando, a risadinha, a xacota, era disso que gostava.

Final do campeonato varzeano da AASNO – Associação Amigos da Praça Senador Norberto Osório – lá na famigerada Zona Leste de Sapucaia.

Jogo pegado, 1 x 1 no maior clássico sapucaiense. Botafogo de Sapucaia e Mercado do Bahia. A equipe do MDB, como era conhecida, vinha mordida por ter sido derrotada humilhantemente no ano anterior pela placar de 5 x 0, na mesma final. Esse era o ano da revanche.

O treinador Sílvio Bigode havia pedido ao Sabonete: “-Quando tu driblar o zagueiro, bate no gol! Não joga pra trás!”

O zagueiro parou na frente dele. Ginga pra cá, sassarico pra lá, golpe de caratê do zagueiro, meia lua do Sabonete. O zagueiro volta, voando, como se sua vida dependesse de roubar ou não aquela bola, e disfere um carrinho a meio metro do chão. Sabonete dá aquela cavadinha bem curtinha. A bola vai passando… passando… “vou pegar”, pensa o zagueiro, “estica pescoço!”, não deu. Lençol humilhante. Se dá por vencido, fica no chão, simula uma lesão e pede para sair. E o Sabonete como de costume volta todo o jogo. O Bigode arranca os parcos tufos de cabelo que lhe sobra.

Na concentração do time era sempre o homem que puxava o pagodão. Um festeiro. Um gênio, com a bola e sem ela. Se fosse um pouco mais concentrado e objetivo seria um Pelé.

Mas sua mulher já não aguentava mais. O amava. Como ninguém pode amar outra pessoa, o amava. Mas era demais. Nunca chegava antes da meia-noite. Sempre bêbado, sempre fedendo a perfume barato, mas sempre com um sorriso nos lábios e um mimo para sua amada.

Pois ele a amava também. Claro, a seu modo. Mas amava com a intesidade de um furacão.

Quando estavam juntos era só alegria. Ele falava coisas pra ela, destas que só se fala entre o casal, e sorria, sorria sempre. Um brincalhão. Nas festinhas da vizinhança era sempre o mais requisitado. Conhecido em Sapucaia por ser o maior animador de festas. Ao seu lado ela era a esposa mais contente do mundo.

Mas ela o queria sempre. Não só de vez em quando. Não só de dia.

Foi aí que aconteceu.

Chico Pata Dura, o centroavante do Botafogo de Sapucaia se lesionou. Uma entrada desleal. Dele. Sim, dele no zagueiro. Quase matou o zagueiro, mas se contundiu quando a cabeça do defensor chocou-se com a rótula de seu joelho. Seis meses parado.

O Bigode não queria, mas acabou colocando Sabonete como referência no ataque.

Aí o mundo do Sabonete mudou.

Continua…

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