sábado, 22 de maio de 2010

A mulher do Sabonete - Parte II

Nos primeiros 3 jogos o time não fez nenhum gol. O Sabonete driblava a zaga inteira, passava pelo goleiro e deva um balão para a torcida. Mágico. Um gênio. Humilhava o adversário. Mas os três pontos não vinham.

Banco.

Foi o único jeito que o Bigode encontrou para forçar o Sabonete a fazer o gol. Dois jogos na reserva. O homem se roía. Suplicava, prometia, “Deixa eu jogar, vou botar pra dentro! Eu Juro!” sabia que o Bigode gostava dele. Era seu melhor jogador.

“Vou te colocar, mas com uma condição: sem drible. Se tu driblar alguém, sai na hora!”

Entrou. E fez como o prometido. No primeiro tempo não driblou ninguém e guardou 5 gols. Um craque.

Quando voltou para o segundo, com o Bigode já faceiro, se descuidou. Primeira jogada, duas janelas, um lençol e um elástico. O coitado do volante adversário tinha espasmos caído no gramado.

“Sai!”, gritou o Bigode com a taturana acima da boca toda respingada de baba, e já levantou a placa de substituição.

“Por quê?”

“Objetivo!”

Saiu dando risada e dizendo “mas o cara nem me viu”.

No outro jogo o Bigode falou a mesma coisa: objetivo, sem drible. E aconteceu de novo, 3 gols só no primeiro tempo. No segundo mais dois, e no finalzinho uma carretilha e duas meia-luas. Saiu novamente.

“Por quê?”

“Objetivo!”

E assim foi até que o Sabonete virou centroavante. Gols em todos os jogos!
Toques certeiros, sempre de primeira, do jeito que dava: chutando, de coxa, cabeça, calcanhar, canela, ombro, barriga, joanete... não importava mais a beleza. OBJETIVO!
E em casa. Ahh em casa. Sua patroa o tinha agora só para si. Nunca mais chegou depois das 8. Era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Uma vida de sonho…

Ou não.

Também não trazia mais mimos para ela. Não era mais só sorrisos nas festas. Aliás, não havia mais festas “tenho que me concentrar para o jogo de amanhã”, dizia ele com o cenho fechado, “senão o Bigode me tira, não esquece: Objetivo!”

Ele já não era mais o mesmo Wellington Leandro que ela amava. Transformou-se em um burocrata do futebol e um burocrata do amor. Não a procurava mais para falar aquelas maluquices de casal que lhe sussurrava ao pé do ouvido. Não poderia mais conviver com isso. Queria seu Sabonete de volta! Queria seu criativo de volta! Queria o seu bagaceiro de volta!

Naquele ano o Botafogo de Sapucaia ganhou tudo. Wellington Sabonete foi o maior artilheiro em uma só temporada de todos os tempos (em Sapucaia).
O tal do Bigode não cabia mais em si mesmo. Todos o parabenizavam, criara o maior centroavante que a Zona Norte de Sapucaia já conhecera. Venceu todos os Campeonatos e com resultados elásticos sempre.

Domingo. Residência do treinador. Depois de uma vitória esmagadora, com 3 gols do Sabonete -feios diga-se de passagem, um de canela, o outro trombando com o goleiro e no terceiro um carrinho arrancando tufos de grama- a equipe estava fazendo o tradicional churrasco da vitória.

Uma maravilha, o Bigode, como sempre, de assador, os jogadores tomando uma cervejada fortíssima, menos ele.

Sabonete ficava agora em um canto com uma televisão e um vídeo tape do jogo, analisando cada lance e querendo melhorar. Os outros o convidavam “Vamo tomá todas Sabonete! Tu meteu 3!”, ao que ele respondia: -“Tá loco! Podia ter feito 6! Mas no próximo não vou fazer tanta firula...”

Foi quando ela apareceu.

Óculos escuros, uma manta enrolada na cabeça, chapéu com abas largas. Parecia uma investigadora. O lagartixa, meia esquerda da equipe, que tinha “restrições” com a lei, até pensou em sair correndo, mas o treinador lhe disse que não era nada disso, que podia ficar calmo.

Bigode a levou para dentro de casa, só aí ela tirou os óculos e ele percebeu os olhos chorosos da mulher do Sabonete.

“Ele não pode mais ser centroavante!”

“Mas Tchê – ele era metido a gaudério – Ele agora é um santo! Não chega mais atrasado, não enche mais a cara, e não sei se tu sabia, o pessoal dizia que ele tinha umas amigas...”

“Eu quero ele na ponta direita.” Disse com uma voz quase inaudível, uma lágrima correndo a pele muito sedosa.

“Mas o cara é o melhor centroavante que eu já vi! Além de ser tudo que tu queria... Agora ele é só teu!”

“É só meu, mas não o MEU Sabonete.
Me devolve o craque do meu coração.
Eu não quero um centroavante! Me devolve meu ponta-direita.”

E deu as costas pro Bigode, que só conseguia pensar uma coisa:

-Mulheres...





Ps.: Não sei qual a moral da história. Mas achei muito bacana.

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